Para se comunicar melhor, é importante ser um bom ouvinte. Se temos uma mensagem em mãos e estamos ansiosas e ansiosos para compartilhar com o mundo, é importante encontrar o tom de voz adequado e que converse, de fato, com o que público deseja — e é capaz de escutar. Se a plateia é seu time, então, muito cuidado nessa hora. Com o Chora Solto, desconstruímos os padrões que, normalmente, estamos acostumados a atribuir à ideia de um bom orador.  Aqui, unimos a ciência da oratória com habilidades socioemocionais que nos ensinam que a comunicação no trabalho é mais do que uma ponte para conectar ideias ou convencer pessoas. Revela de que forma somos sensíveis às demandas e vulnerabilidades de quem nos cerca. 

A seguir, abrimos o jogo e contamos um pouco do que sabemos sobre o assunto. Vamos mostrar por que a comunicação no trabalho afeta diversas camadas da relações cotidianas, a ponto de ser um termômetro para medir como está o equilíbrio de nossas relações.

As dores e violências que ameaçam uma comunicação saudável e eficiente no trabalho

A comunicação é um fator primordial nas nossas relações. Afinal, somos seres sociáveis, e construímos nossos relacionamentos a partir dos vínculos que somos capazes de criar. Da mesma forma, a comunicação no trabalho acaba sendo a base para que todos os processos ocorram, uma vez que deve haver um entendimento entre os colaboradores sobre os objetivos a serem alcançados e o papel que cada um deve desempenhar durante todo o percurso. 

Os dados confirmam: para um ambiente de trabalho produtivo, e que engaja, os colaboradores contam com mensagens de colegas e de seus líderes para saber para onde ir, enquanto também esperam ter espaço para transmitir suas próprias opiniões. De acordo com uma pesquisa recente, empresas estão dispostas a investir mais de 50% do tempo com a comunicação no trabalho. Ao mesmo tempo, entre as habilidades socioemocionais em destaque pelo Fórum Social Mundial, encontramos o trabalho em equipe como uma das maiores demandas do mercado de trabalho para 2020. E, para trabalhar de forma produtiva com outros profissionais, o diálogo é um fator decisivo para o jogo. 

Para compreender de que forma é possível construir um olhar mais sólido para a comunicação no trabalho, o ambiente organizacional também está cada vez mais atento a diversas colaborações de estudos acadêmicos que, nas últimas décadas, procuram entender as dimensões da comunicação como uma estratégia de resolução de conflitos e de diagnóstico de ameaças. Entre elas, destaca-se a de Estudos para Paz (Peace Studies), teoria que se tornou em movimento, oficialmente, nos anos 90, pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), mas começou a ser desenvolvida já nos anos sessenta pelo sociólogo e matemático norueguês Johan Galtung. A teoria trabalha com o conceito de paz como o estado de ausência da guerra, contribuindo, portanto, para compreender os estados da violência e como apontar saídas para silenciá-los. A UNESCO ainda sintetiza os Estudos para Paz como uma proposta “intrinsecamente relacionada à prevenção e à resolução não violenta de conflitos”, baseando-se em princípios de tolerância, solidariedade, respeito à vida, aos direitos individuais e ao pluralismo.

E se os Estudos para Paz foram utilizados, originalmente, para desenhar diálogos em contextos de conflitos de guerra, ou em ambientes educacionais e outros espaços de coletividade sociais, hoje essa teoria está sendo reconhecida como um dispositivo de identificação e combate da violência em espaços corporativos. A partir dela, podemos compreender, por exemplo, de que forma a ausência da comunicação no trabalho, ou sua má prática, pode deflagrar em conflitos com consequências danosas para a organização e para seus indivíduos. E a partir desse entendimento, quais são os caminhos para um diálogo mais acolhedor, conciliatório e, portanto, menos excludente, principalmente quando estamos discutindo, cada vez mais, a presença de grupos que ainda assumem um papel marginalizado no mercado de trabalho. 

Professora dos cursos de graduação e pós-graduação em Comunicação da Faculdade  de Arquitetura Artes e Comunicação (FAAC) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Raquel Cabral dedica-se, entre outros temas, ao estudo da comunicação para paz em ambientes corporativos, e recentemente passou a investigar a presença do fenômeno da violência organizacional. “Ao pensar a cultura da paz no ambiente organizacional,caberia refletir sobre todas aquelas ações que levariam a uma mudança da cultura organizacional  capaz de desconstruir valores, comportamentos e discursos que legitimam a violência cultural: machismo, preconceito étnico-racial, homofobia, preconceito etário, xenofobia, entre outras formas de violência que são naturalizadas no contexto das organizações”, explica. 

O roadmap para um ambiente de trabalho construído pelo diálogo 

Para imaginar e criar qual seria a situação ideal para a comunicação no trabalho, é importante desenvolver um olhar sistêmico. A partir do entendimento de como devem ser estruturadas as relações entre os colaboradores, surge o momento de fazer os ajustes em tudo o que coloca a empresa longe desse objetivo. É importante que haja espaço para a revisão de questões da própria cultura da empresa, que podem contaminar o ambiente de uma forma negativa e irreversível. 

  1. Reveja as métricas 

Se o mercado está cada vez mais atento às bases das relações entre seus colaboradores, ainda encontramos uma cultura de competitividade que afeta até mesmo os relacionamentos internos. Para lidar com a contradição entre a necessidade de um negócio eficaz e, portanto competitivo, mas ao mesmo tempo saudável para o time, Cabral recomenda repensar o papel que damos às métricas que definem o sucesso dos negócios.  “Acredito que para dar lugar a um ambiente não violento e acolhedor da diversidade cultural, social, de gênero, étnico-racial, sexual, etária, entre outras nas organizações, será necessário romper com a ideia de performance. Penso que este é um dos maiores desafios atuais das organizações, principalmente das privadas, em que a questão da competitividade é um elemento fundamental. Contudo, há iniciativas interessantes de algumas organizações privadas que buscam equilibrar essas assimetrias criando outras dinâmicas de trabalho em que a performance não é um elemento central”.

  1. Posicione-se 

Trabalhe a insegurança que, por vezes, aos olhos dos colegas, pode ser confundida com hostilidade ou desinteresse. Não hesite em compartilhar sua visão sobre as coisas. Claro, há muitas formas de fazer isso sem que haja a criação de conflitos desnecessários. Leia mais sobre e coloque em prática os aprendizados da comunicação não violenta. Conquiste segurança investindo em técnicas de oratória. Com assertividade, clareza e empatia, o que você fala vai estabelecer pontes que o silêncio poderia transformar em barreiras.

  1. Entenda quem está ouvindo 

Para quem é a sua mensagem? É o primeiro questionamento que deve ser feito para uma comunicação no trabalho que realmente funcione. Cada indivíduo possui um repertório e uma vivência de mundo distintas, elementos culturais que, se uma vez não são respeitados, são armadilhas perfeitas para conflitos e outras violências. 

Também vale pensar nos canais que você utiliza para transmitir sua mensagem. Se for importante documentar decisões, experimente o e-mail. Mas sempre alinhados a um diálogo olho no olho que é fundamental para um ambiente de trabalho mais humanizado, e motivador.

  1. Escute, sem medo 

Para uma comunicação no trabalho equilibrada e, portanto, saudável, é essencial enxergar quem está do seu lado. Mais do que saber falar, reiteramos, é preciso aprender a ouvir. Afinal, a Comunicação Não Violenta — novamente ela — nos ensina que todos nós temos necessidades e a negociação nada mais é que um processo de dar espaço ao que o outro necessita e encontrar caminhos compensatórios para todos os envolvidos. Desenvolver a capacidade de escutar genuinamente apenas potencializará a sua própria mensagem, uma vez que haverá um acordo mútuo de entender e tentar trabalhar com as demandas de cada uma das pessoas que está com a gente. 


A comunicação no trabalho não pode ser subestimada. Pense em quantas situações tudo parecia ir bem mas, a partir de um pequeno desentendimento na equipe, veio à tona uma série de ruídos que há muito tempo desequilibrava o ambiente? Como vimos, problemas de relacionamento podem acarretar conflitos com consequências mais sérias para a saúde do colaborador e, até mesmo, para o futuro das empresas. Saber como inserir sua mensagem, portanto, também é saber como dar espaço e vida a um um ambiente humanizado de trabalho, em que leveza e liberdade estejam a serviço de extrair o melhor de cada um dos colaboradores.