Por que alguém em sã consciência toleraria emoções irritantes em vez de fazer qualquer outra coisa? Não é mais fácil explodir — e depois catar as consequências — ou então só ignorar do que ter de nutrir e desenvolver a paciência? Olha, talvez não.

Um estudo intitulado The psychology of patience verificou que, quanto mais uma pessoa está confiante em ganhar algo, mais paciente se torna. Suponhamos, por exemplo, que você esteja passando por um problema, mas acredita que poderá sair dele. A pesquisa mostra que, nesses casos, será mais capaz de tolerá-lo. Já que, então, as emoções são alimentadas por um diálogo interno que se origina em crenças, temos a possibilidade de transformá-lo, garantindo que os estoques de paciência voltem a encher

E dentro do contexto da transformação pessoal em busca da paz que a gente tanto quer, Gustavo Gitti tem muito a compartilhar. Ele é professor de TaKeTiNa (transformação pelo ritmo), coordenador do olugar.org (comunidade online de florescimento humano) e facilitador no Centro de Estudos Budistas Bodisatva – CEBB SP, e bateu um papo bem rico com a gente sobre como ser mais paciente dentro de óticas que fazem sentido não só na área profissional, mas na sua vida como um todo. Vamos juntos expandir nossa capacidade de conquistar a tranquilidade que, na verdade, sempre esteve dentro de cada um de nós? Então vem!

SPUTNiK – O seu trabalho é um verdadeiro convite à transformação em busca de si mesmo e do melhor relacionamento com o outro e com o mundo. O que significa essa transformação quando a gente fala sobre o ambiente de trabalho?

Gustavo Gitti – O grande engano que vejo nas empresas é individualizar problemas coletivos, ou seja, exigir transformação pessoal enquanto sustenta estruturas aprisionantes. A empresa contrata, por exemplo, uma palestra minha sobre felicidade genuína e meditação, mas não dá a tarde livre para as pessoas. Estou lá falando sobre a micro apneia que acontece quando checamos e-mails, sobre a importância de relaxar e respirar livre das tarefas, mas a pessoa está preocupada com o que fará a seguir. 

Você cria um ambiente de tensão e diz: “Relaxe, faça mindfulness!”. Ou seja, a grande mensagem é “Se vira, mude você, nós não vamos mudar”. Gregory Bateson chama esse processo enlouquecedor e traumático de “duplo vínculo”. Se questionadas, as pessoas mais importantes na corporação frequentemente dizem: “Ah, mas todo o mercado funciona nesse ritmo.” Não é verdade: podemos fazer diferente, podemos escolher não reagir e implementar uma nova atmosfera. Há incontáveis exemplos de empresas que experimentaram reduzir o trabalho para 4 dias por semana ou para 6 horas por dia. E a tal da “produtividade” até aumentou

Outro exemplo: a empresa contrata um workshop sobre empatia ou, melhor ainda, sobre compaixão nas relações, enquanto sustenta um ambiente de competição diária por meio de dispositivos de avaliação e recompensa. Nesse caldeirão de competições, cada pessoa agora precisa entender o mundo do outro, não competir, ajudar… Mas se a própria empresa fizesse isso, não precisava de palestra sobre felicidade e nem de workshop de compaixão. O dinheiro poderia ser investido em aumentar os salários, reduzir carga horária e visar um lucro menor, crescendo e produzindo menos, porque não? Por que é um absurdo focar mais na vida do que no capital?

Se a empresa quer mesmo o bem-estar dos funcionários e do mundo ao redor, ela realmente precisa mexer no seu principal negócio, não adornar o problema com eventos e palavras bonitas. Ou seja, se ela produz refrigerante, que sempre faz mal para seres humanos, a maior compaixão seria parar de produzir. Se ela cresce a ponto de destruir rios, idem. E se ela quer mesmo introduzir compaixão, sua diretoria deveria aumentar os salários, no mínimo. Sobre a uberização do trabalho, recomendo o novo filme de Ken Loach – Você não estava aqui – e o livro Uberização: a nova onda do trabalho precarizado, de Tom Slee. E, para quem se interessa por empresas mais humanas, recomendo três livros: Um coração sem medo, de Thupten Jinpa, A revolução do altruísmo, de Matthieu Ricard, e The mind of the leader, de Rasmus Hougaard.

O que para você representa ser realmente paciente em um mercado de trabalho onde a ansiedade impera e todos estão sempre desesperados para serem bem-sucedidos o mais rápido possível?

A essência da paciência é a não perturbação. Não é bem ficar sustentando uma paciência, pois como diz a expressão popular, “paciência tem limite”. Se você tem paciência, você rapidamente a perde. Um de meus professores, Lama Padma Samten, sempre brinca que a maior paciência é só não ter impaciência, é seguir sem se perturbar. Paciência em tibetano é zopa (existe até um grande professor chamado Lama Zopa Rinpoche). E a essência da paciência, a sua verdadeira natureza, é a não perturbação, a quietude imutável, e ao mesmo tempo aberta aos movimentos incessantes da vida. Em tibetano, imperturbabilidade é mingyur — há também um grande mestre, um de meus professores, que se chama Mingyur Rinpoche. Dele recomendo todos os livros. 

Nós confundimos imperturbabilidade com indiferença, mas isso é um engano. Na verdade, quanto mais irritáveis somos, mais precisamos nos proteger em casulos. Por outro lado, quanto mais imperturbáveis, mais deixamos o mundo nos tocar, como faz a terra, o céu ou o espaço ao nosso redor: seguem imperturbáveis e por isso sempre acolhendo, apoiando se deixando tocar.

O que você faz para trabalhar a sua paciência dentro e fora do seu ambiente de trabalho na sua rotina pessoal? 

A paciência pode começar a ser cultivada por três grandes abordagens: a do equilíbrio, a da sabedoria e da compaixão.

Pelo equilíbrio, você pode começar cultivando relaxamento e estabilidade pela prática de shamatha (“calmo repousar)”, que existe há milênios como um recurso mental em nossa família humana, antes mesmo do Buda surgir. A palavra “meditação” é um tanto problemática. Em tibetano, usa-se gom, que significa apenas uma intimidade ou familiaridade com a mente e com a realidade (com a impermanência, por exemplo). E em sânscrito, usa-se bhavana, que significa apenas cultivo, treino, florescimento de alguma qualidade natural da mente. Há diversos métodos que levam uma capacidade de não reagir e se manter imperturbável, ainda que com a mente aberta e conectada com toda a amplitude de seres e experiências. O objetivo dos métodos de shamatha é aprofundar nossa capacidade de integrar quietude e movimento, sem ficar indiferente (dependente da quietude) e sem ficar desesperado (condicionado pelas condições externas). Normalmente combinamos práticas de estabilidade com práticas de sabedoria, pelas quais ampliamos nossa visão, e de compaixão, quando abrimos o coração e pacificamos as relações. Desse modo, a paciência nasce de modo progressivo e natural.

Além disso, nas abordagens mais ligadas à sabedoria e à compaixão, há uma paciência mais profunda, que significa parar de lutar contra a natureza impermanente, não resolvível e insubstancial dos fenômenos. A verdadeira paciência nasce da compreensão de que você nunca vai de fato ser bem-sucedido na trajetória pessoal que você chama de “carreira”. Você nunca, de fato, vai virar alguém, pois sua natureza é livre. Isso é assustador! Nós queremos enfim ser alguém, sermos amados por alguém, termos algo para agarrar… Queremos uma narrativa e um propósito pessoal. Pelo poder da interdependência, nossa vida nunca consegue ter sentido sozinha, apenas na conexão com as outras vidas. Uma mente autocentrada está tentando algo impossível, então sempre sofre. 

A maior paciência vem de se abrir para essa realidade além das nossas estratégias de sucesso pessoal e além de nossas narrativas, conceitos, teorias, opiniões e pensamentos sobre a vida. É uma paciência de começar a relaxar na incerteza, sabendo que não há como se agarrar. Eis a diferença entre uma pessoa que se diz em um momento de transição, esperando para relaxar num novo platô, e a pessoa que entendeu que sempre estamos em transição, que a vida é isso e não há platô seguro possível. A primeira pessoa sempre vai perder a paciência, pois sua visão não dá conta do dinamismo da vida. E a segunda pessoa começa a não se impacientar tanto, ao relaxar no próprio desconforto de não saber direito onde está, quem é, quem são os outros e o que está acontecendo. Ela é mais flexível, erra, se frustra e não tenta logo escapar desse lugar de não-saber. É essa abertura a fonte da verdadeira segurança: uma comunicação constante com o dinamismo e com a complexidade das situações.

Sobre isso, recomendo 3 podcasts que gravei recentemente: Como viver uma vida com sentido, Coemergência: existe algo lá fora e Vacuidade: a natureza aberta da realidade.

Sobre o que eu pratico, é isso: métodos de shamatha, sabedoria e compaixão que aprendi com Lama Padma Samten, Lama Alan Wallace e Mingyur Rinpoche, entre outros grandes professores com quem tive algum contato nos últimos 15-20 anos. Não me considero um ser paciente. Rapidamente me irrito, pergunte para a Isabella Ianelli, com quem sou casado. Ela não só vê minha impaciência, como sabe a origem da paciência, afinal é formada no programa Cultivating Emotional Balance e oferece online o curso das emoções

Quais gatilhos desencadeiam a perda da calma que precisam mais da nossa atenção?

Essa ideia de “gatilho” é muito perigosa. Pode dar a entender que há algo realmente perturbador, sendo que é nossa mente que se perturba. Parece mais inteligente tentar se proteger descobrindo o que é realmente perturbador e então criando um casulo de proteção, um “safe space”, como se encontra muito na cultura americana. Mas o verdadeiro espaço seguro é a natureza livre da nossa mente. Essa abordagem do “gatilho” é desempoderadora: ela dá o poder para que muitas coisas nos arrastem. Ela nos tira a curiosidade que leva à descoberta de nossa bondade fundamental, que é nossa maior força.

Claro, em situações de muita fragilidade, a melhor coisa é se afastar daquilo que parece ser a causa do sofrimento. Não vamos chegar em uma pessoa que foi vítima de violência e dizer que ela está causando o sofrimento. Não, pelo contrário, nesse momento é muito benéfico para a pessoa não se culpar e entender que ela não fez nada que causou o sofrimento, que a violência foi do outro. Como vemos em grupos de apoio, precisamos lutar para que essa violência acabe! Porém, assim que a pessoa melhora, se ela realmente quiser liberar as causas do sofrimento pela raiz, começando com pequenos sofrimentos, pequenas irritações, a melhor visão é entender que é a sua mente que se perturba desnecessariamente, que a causa da perturbação não é bem externa. Mesmo quando há algo imensamente errado na sociedade, não ajuda se tentarmos mudar o mundo com uma mente perturbada. Chegamos fracos e reativos diante dos problemas.

Descobrir que a causa do sofrimento é interna é empoderador! Isso não significa dizer que a causa é individual, mas que é sustentada também pela nossa mente por meio da cultura. Não é uma abordagem passiva, mas muito vigorosa, enérgica, firme. Paramos de apontar dedos e podemos transformar nossa mente, nossa visão, nossa atitude, nossas relações. Essa é a melhor posição para transformar os sofrimentos coletivos e construir um outro mundo. Qual mente é mais poderosa para acatar as bases da desigualdade social, por exemplo? Uma mente reativa ou uma mente estável? Essa transformação envolve parar de lutar com o nosso sofrimento. Envolve usá-lo como combustível: entender que ele é coletivo, gerar compaixão a partir dele, sabedoria, estabilidade, relaxamento, energia para ações transformadoras em todas as direções. Abre-se todo um caminho a partir dessa relação mais lúcida com nossa revolta diante de tantos problemas sociais.

Todo mundo quer ser feliz, mas como a gente começa essa jornada a partir da dor de não conseguir esperar por nada, de querer pular etapas para conquistar as coisas mais rápido?

A gente pode começar se cansando. Se você é privilegiado, você já deve ter tentado de tudo: livros, cursos isolados, estados alterados, sexo, viagens… Você pode ter melhorado, mas está realmente contente com uma versão atualizada de suas confusões e aflições? Veja como todas as felicidades que você teve foram condicionadas. O namoro que mais te fazia feliz foi o que mais te deixou sem conseguir dormir, respirar, comer por semanas ou meses. E assim por diante. Enquanto não transformarmos nossa mente, vamos sempre ficar autocentrados, reativos, sérios dentro de bolhas e identidades posadas. Nunca de fato encontramos a felicidade porque estamos buscando no mundo impermanente das aparências. Uma mente feliz não é uma mente que se fixa em experiências específicas, mas uma mente livre, capaz de soltar o apego e a aversão a qualquer experiência. E estamos buscando de modo individual. Felicidade é uma mente aberta, com compaixão, sabedoria e estabilidade naturais. É por isso que ela implica na felicidade dos outros ao nosso redor. Não podemos descansar enquanto houver sofrimento do outro lado da rua.

Esse cansaço diante das tentativas autocentradas de ser feliz vai nos levar a uma maturidade. Vamos começar a ver o limite de entender, ler, ouvir palestras, saber explicar, fazer terapia… E vamos começar a querer algo mais radical: trabalhar diretamente com nossa mente usando métodos em primeira pessoa. Pode ser então que nosso eurocentrismo se evidencie como uma ignorância e comecemos a nos interessar pelos grandes sábios de nossa família humana, em vez de ouvir empresários que tiveram apenas algum sucesso e hoje falam sobre felicidade e sentido da vida, como se tivessem alguma sabedoria. 

O que as pessoas podem fazer fora do ambiente corporativo para conseguir trabalhar a paciência que precisam no dia a dia de trabalho?

Há uma prática bem simples para ampliar sua paciência a partir do amor e da compaixão. Ambas começam quando reconhecemos uma paciência natural surgindo em momentos cotidianos. Para reconhecer a compaixão, observe como você nunca desiste ou joga no lixo a louça suja. Você a limpa, mesmo que demore. Por quê? Ao mesmo tempo em que lida com a sujeira, você sabe que o vidro, a cerâmica, a pedra sabão, o aço inox não estão verdadeiramente sujos. Há algo que segue limpo mesmo enquanto está sujo. A sujeira não chegou a se misturar com a porcelana! É apenas por isso que podemos limpá-la. Do mesmo modo, a compaixão vê o sofrimento das aflições, enganos e ações negativas sem congelar os seres. Eis a origem da paciência: você trabalha, leve o tempo que levar, para que cada ser possa se liberar do que o aprisiona, sempre sabendo que todo sofrimento é atravessável, trabalhável, liberável. Isso é a compaixão.

Para reconhecer o amor, observe uma mãe com um bebê: na maioria das vezes, ela manifesta uma natural paciência pois sente que ele é um ser em processo — e todos nós somos seres em formação. Uma professora de música vê o aluno mal conseguindo tocar e, ainda assim, reserva um teatro inteiro para a apresentação de fim de ano. Por que ela faz isso? Porque ela vê o potencial de florescimento e imagina, sonha, adivinha no que o outro vai se tornar. Isso é amor: desejar que o outro seja feliz e manifeste as causas da felicidade, agindo como apoio para que isso se realize. Quanto mais amor e compaixão você manifestar, mais natural será sua paciência.

Quando você estiver com raiva ou encontrar alguém com raiva, uma prática tradicional e bem simples para se conectar com o verdadeiro movimento dos seres é pensar: assim como eu, os seres sentem raiva; assim como eu, os seres ficam desconfortáveis com a raiva e desejam transformá-la; assim como eu, a natureza mais profunda de cada ser é bondosa, então eles podem ser felizes. Desse modo, você vai ampliar seu desejo autocentrado de ser feliz para um desejo altruísta de que todos os seres sejam felizes. Se você abrir esse olhar, isso é amor, um dos caminhos mais naturais para a paciência. 

Pra terminar, é mesmo humanamente possível manter a calma em meio ao caos corporativo diário?

Sim. Por um lado, precisamos transformar o ambiente de trabalho. Ele não precisa ser tão violento, tenso e competitivo. Em paralelo, podemos relaxar na sabedoria de que sempre haverá algum nível de caos e conflito ao nosso redor. A vida não se resolve. Não importa o que aconteça, a qualquer momento, em qualquer situação, podemos soltar a rigidez no corpo, destravar a respiração, ampliar a visão e abrir o coração. Isso é sempre possível. Nenhuma situação realmente consegue nos tirar esse poder. Até mesmo uma mãe que perde o filho pode descobrir a força inacreditável da compaixão. Porém, não basta só você fazer isso. É preciso criar condições para que mais e mais pessoas possam florescer. 

Gustavo Gitti é professor de TaKeTiNa , coordenador do olugar.org e facilitador no Centro de Estudos Budistas Bodisatva – CEBB SP, como aluno de Lama Padma Samten e do Professor Alan Wallace. Além de cursos sobre meditação, relacionamentos e felicidade genuína, já ofereceu sua visão para empresas, como Vivo, Evonik, SESC SP, Dante Alighieri, Natura, e também para universidades, como HC-USP, Unifesp, Unicamp, UFRN, UVV, UFJF, UFRJ e PUC Minas. 

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