Por que o conceito de aprender durante a vida ganha contornos ainda mais urgentes no contexto pandêmico em que estamos inseridos? 

 

O mundo está de ponta-cabeça, tudo fora do lugar. E é exatamente por isso que a gente já está aprendendo a desconstruir o que era padrão, o que era certo e aceitável para criar uma nova realidade. Acreditamos, aqui na SPUTNiK, que depois que tudo isso passar, não vamos voltar para lugar nenhum, vamos começar de novo. Porque o futuro que a gente imaginava chegou, mas chegou diferente de tudo o que conhecíamos até poucos meses atrás. Nós, que já defendíamos uma educação disruptiva, agora sabemos que a aprendizagem passa a ocupar um nível diferente, e é esse novo presente que vai definir a jornada das empresas do futuro.

Em termos evolutivos, nós somos máquinas de aprendizado – voltadas para sentir nosso ambiente, registrar novas experiências e adaptarmos de acordo. O desejo de aprender está codificado em nosso DNA, basta ver um bebê agarrando um brinquedo ou uma criança tentando andar e você poderá ver nosso desejo inato de explorar. Lifelong learning é um conceito que pode ser amplamente definido como uma aprendizagem que é perseguida ao longo da vida: uma aprendizagem flexível, diversificada e disponível em diferentes momentos e em diferentes lugares. Ou seja, um aprendizado intencional, seja formal, não formal ou informal. Ainda mais agora, em tempos de isolamento social, quais os benefícios de olharmos com atenção para o Lifelong Learning e levantarmos essa bandeira? 

 

Além da educação disruptiva

Não dá para negar que, em meio a esse turbilhão de acontecimentos assombrosos e números chocantes, estamos aprendendo muito. Trabalhando de casa, aprendemos a nos conectar com o mundo todo de um outro jeito, criamos novas possibilidades, descobrimos novas habilidades e estamos, pelo menos, nos preparando para entrar em um cenário totalmente (re)construído. Dentro desse contexto, a educação também vai ser revista porque, talvez, muito do que sabemos, na teoria, vai deixar de ser essencial, e outros pontos de vista passarão a ser fazer mais sentido nesse novo aprendizado. Por isso, está na hora de se perguntar: como fica a educação em tudo isso? E também é aí que a gente entende que somos seres aprendizes desde sempre, e que o que importa não é o que se sabe, mas como esse conhecimento é mutante, atemporal e primordial.

Decidimos, então, mergulhar no universo do Lifelong Learning, convidando mais uma vez a Andréia Matos, formada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduada em Pesquisa de Tendências pelo Istituto Europeo di Design de Barcelona, para percorrer junto com a gente nessa ressignificação do conhecimento, e o resultado é uma pesquisa ampla e profunda sobre a importância de estarmos sempre em evolução, presentes na nossa experiência única de estarmos prontos para aprender tudo o que a vida tem a ensinar. Cada um do seu jeito, no seu ritmo, onde enxerga valor, mas nunca no lugar-comum.

Imersa no tema, que vem crescendo ao longo dos últimos anos, Andréia conta que sua investigação a fez se perguntar o que o Lifelong Learning realmente representa para seres que entendem que não há mais espaço para ser obsoleto. Para ela, estamos sendo cobrados a nos adaptar a essa nova ordem das coisas, na qual as máquinas querem saber mais do que as pessoas, só que não podemos nos esquecer que ser um aprendiz, assumindo que não sabemos tudo e que tem muito a ser explorado, é um benefício de que nenhum equipamento pode compartilhar. Ela aprendeu, estudando o Lifelong Learning, que o importante é a gente não se limitar a perspectivas unilaterais porque isso só empobrece a ideia de aprendizagem como algo que enriquece a existência humana para desenvolver uma atitude de abertura para o novo, e assim fazer minar um dos seus principais motivadores: a curiosidade de se aventurar pelo mundo de verdade. 

 

Normal pra quem? 

Todo mundo está acostumado ao que acredita ser “normal”, mas quem disse que essa normalidade já existiu? E se é uma utopia, como vamos voltar para lá depois que a pandemia acabar? Um momento inesperado como esse não pede apenas soluções nunca antes pensadas, mas renova o nosso jeito de aprender e desaprender. Na pesquisa, Andréia traz as possíveis fortes mudanças que o contexto de aprendizagem e trabalho vai sofrer sendo que a presença física dos profissionais vai ser questionada, reavaliada sob óticas diferenciadas. Agora é um bom momento para pensar o que vai deixar de ser necessário quando a aprendizagem in company estiver sob o holofote da realidade pós-pandemia (o que já começou a ser pauta para muitas empresas que têm a cultura digital como core). Andréia destaca que o acesso a cursos online, plataformas de estudo, vídeos, podcasts e games, e mesmo as atividades que as pessoas estão desempenhando em casa durante o isolamento, vão fazer com que elas passem a ver a educação como algo mais envolvido no seu cotidiano ao invés daquela ideia de que você só aprende quando entra em uma sala de aula.

Nossa pesquisa sobre Lifelong Learning parte dessa abordagem para explorar que, mesmo nesse mundo extremamente conectado, o contato humano não se torna desnecessário, e sim ganha novos significados porque, na vida real ou virtual, existimos, vivemos e aprendemos em sociedade. O Lifelong Learning é individual e conjunto, online e offline, mas não pode ser excludente. Afinal, todo ser humano tem direito ao acesso de tudo que o faz ser melhor, pessoal e profissionalmente, numa realidade em que, mais do que nunca, a mudança é a única constante.

“A ideia de ser um aprendiz ao longo da vida é fundamental para que estejamos preparados a nos transformar constantemente, junto com essa transformação sem fim em todos os âmbitos da vida no século XXI.”

Andréia Matos

No novo contexto da educação in company, onde metodologias ágeis são combinadas com processos criativos e inovação, o profissional que não se cansa de aprender ganha ainda mais valor. O futuro já começou para quem enxerga, assim como Andréia, que os processos tradicionais de aprendizagem estão em descompasso com a configuração do mundo contemporâneo (e isso já era um fato antes do vírus se instalar). “Como a ideia de aprendizagem ao longo da vida traz intrinsecamente a ideia do indivíduo adquirir uma certa autonomia no processo de aprendizagem, é fundamental que tenhamos como base a capacidade de aprender, refletir e gerar conhecimento, mais do que apenas absorver informações de forma automática e pouco crítica como tradicionalmente se pensava o aprendizado”, ressalta nossa pesquisadora.

 

Lifelong Learning: alguém pára de aprender?

Nascemos com a capacidade de adquirir conhecimento a partir das nossas experiências sensoriais, independente de como isso acontece, e assim vamos construindo nossas habilidades, percepções e conceitos. Mesmo que acontecimentos, danos físicos ou mentais parecem nos fazer regredir, a gente nunca para de aprender. Se você pensar, vai conseguir enumerar algumas novas coisas/habilidades/sensações que aprendeu durante esses meses de quarentena, e que vão ser úteis quando você voltar a viver a vida lá fora. Mesmo que você nunca tenha lido ou ouvido falar a fundo sobre Lifelong Learning antes, o conceito é o que você experimenta o tempo todo: perseguir o aprendizado, a melhoria, a evolução.

Diferente do que muita gente ainda pensa, esse aprender constante acontece em todo lugar, dentro e fora da sala de aula, pela tela do computador, na interação com o outro, em todos os âmbitos da sua vida. Isso leva o Lifelong Learning para o patamar de Lifewide Learning: todos os tipos de aprendizagem e desenvolvimento pessoal em qualquer que seja o ambiente, desde o processo de contar uma história para um filho até o mestrado em uma universidade internacional. Tudo é aprendizado, e como foi definido pelo Relatório Delors em 1996, acontece dentro dos pilares de saber, fazer, ser e viver junto. Bem diferente do apenas “estar na frente do professor aprendendo”, concorda?!

O Lifelong Learning nos leva a uma nova ordem educativa, estruturada pelas “normas” que cada indivíduo coloca para si mesmo, afinal todas as mutações sofridas pela sociedade aceleram métodos de aprendizado que fogem aos tradicionais porque são transformados a todo momento, de acordo com o ritmo de cada pessoa. Assim, o aprender ganha novas definições para a sociedade inteira, para as empresas e instituições educativas, e principalmente para os seres humanos. Toda essa reconfiguração nos leva a olhar para a educação sob um ponto de vista híbrido no qual o conhecimento é independente e pessoal, ao mesmo tempo em que é coletivo e único. Mudança se torna palavra de ordem em qualquer ambiente, mas e como o Lifelong Learning chega dentro das empresas do futuro?

 

In company e fora de qualquer zona de conforto

Lifelong Learning tem tudo a ver com Experience Learning, uma metodologia híbrida que é, ao mesmo tempo, um convite a um novo jeito de aprender e uma resposta ao que os novos profissionais e empresas do futuro buscam. Aqui na SPUTNiK, a gente aposta 100% na experiência que transforma o aprendizado de um jeito não só diferente, mas contínuo, divertido, inovador e que faz sentido. Porque para provocar mudanças que realmente façam a diferença, a gente precisa trazer o futuro para o presente, para dentro do universo corporativo, conectando digital e presencial, colocando pessoas para inspirar pessoas.

Desde sempre, a gente levanta a bandeira do Lifelong Learning porque aprender constantemente e buscar novos conhecimentos é o caminho que leva a gente além do convencional. E por isso essa pesquisa se mostrou tão importante, ainda mais agora que queremos descobrir juntos como tudo vai ser quando toda essa loucura passar. Se éramos flexíveis, teremos que aprender a ser ainda mais “elásticos” para se adaptar, para combinar habilidades que vão passar a ser essenciais e desaprender outras que, nesse contexto diferenciado, perdem sua função.

 

Aprendizado híbrido e sem limites

Nesse contexto pandêmico, a flexibilidade do Lifelong Learning é ainda mais forte porque o momento pede resiliência e o desenvolvimento ainda maior da nossa capacidade de aprender de forma autônoma. Pede, também, nesse clima de instabilidade, que as pessoas entendam que aprender ao longo da vida não garante um emprego para a vida toda (e que isso pode ser muito positivo para a mudança que tanto queremos). Que se adaptar passa a ser a melhor escolha para evoluir junto com a nossa vontade de ser cada vez mais qualificados para encarar tempos incertos. Nessa nova pesquisa da SPUTNiK, você vai ver que, hoje (e ainda mais no futuro!), os profissionais precisam de profundidade em diferentes áreas de especialização, complementadas com desenvolvimento direcionado no trabalho, para se manterem relevantes, ainda mais em cenários com economias emergentes e instáveis, como o Brasil, onde as pessoas precisam se esforçar bem mais para competirem no mercado de trabalho.

Muita coisa está mudando em tão pouco tempo de quarentena, e isso é apenas um sinal de como o mundo todo segue mudando numa velocidade, às vezes, difícil de acompanhar. E como o aprendizado se encaixa nesse ritmo? É o que estamos tentando descobrir também. Quais os próximos passos, como sobreviver, qual a melhor maneira de se adaptar? Muitas perguntas ainda estão sem respostas claras, mas tudo indica que nada será “normal”, muito menos como era antes desse turbilhão. Os acontecimentos recentes, como Andreia bem mostra nesse estudo, nos levam a aceitar que o que parecia essencial não tem mais tanto valor, e a consequência é as atividades profissionais também passarem a ser alvo de questionamentos. Um novo mundo vai emergir da crise, e isso vai afetar o Lifelong Learning de cada um, invertendo a ordem de mudanças que vão acontecer de dentro de nós para dentro das empresas na criação de um novo futuro sustentável em todos os sentidos.

“Nesse período, precisamos insistir no direito das pessoas aprenderem para imaginar seu futuro, em vez de permitir que a aprendizagem ao longo da vida seja reduzida a uma ferramenta de sobrevivência.”

Andréia Matos

O Lifelong Learning é esse saber que nasce da experiência, e com certeza não é algo novo, talvez apenas despercebido. Para Andréia, esse sempre foi o modo de adquirir saber já que o aprendizado só acontece quando a pessoa incorpora o conhecimento para transformar a si própria, sem limites. O saber de verdade extrapola as paredes da sala de aula, e pode ter certeza que vai além de qualquer pandemia. Mas nada disso substitui o convívio com o outro como um grande aprendizado de troca de experiências, que acontece no seu ambiente de trabalho (real ou virtual), em casa, com amigos, a todo momento. O importante é usar a conexão para gerar empatia, é gerar aprendizado a partir das vivências coletivas. E é exatamente nisso que a SPUTNiK acredita: no Lifelong Learning que a gente constrói junto.

E você, está preparado para continuar sendo um profissional aprendiz ao longo da vida?